A LÍNGUA PORTUGUESA: ENTRE A HISTÓRIA,
O PODER E A POESIA
Professor Gleidistone Antunes
O português não é uma pedra antiga cravada no tempo. É rio. Corre entre séculos, atravessa corpos, aprende novos nomes para aquilo que antes não sabia nomear. Carrega na corrente as vozes de quem chegou, de quem foi silenciado, de quem insiste em permanecer. Uma língua vive porque respira na boca do povo e porque se move com o mundo.
Houve um tempo em que esse idioma chegou como maré imposta, cobrindo terras, calando cantos originários, desfazendo sons que pertenciam à floresta e ao vento. Muitas palavras ficaram soterradas, muitas gramáticas nasceram sem registro. Ainda assim, sob a superfície do português que se ensinou como oficial, persistem ecos indígenas, africanos, mestiços, sobrevivendo na música, na fé, na oralidade que se recusa a desaparecer.
Nenhuma língua viva aceita ser museu. As palavras envelhecem quando se recusam a escutar. O português permanece jovem porque muda. Porque se dobra às urgências de quem fala, porque se abre às identidades que se revelam. É no encontro entre a norma e a vida que o idioma se reinventa, não como ruptura, mas como continuidade em movimento.
Hoje, novas formas de nomear surgem como quem acende luz em territórios antes invisíveis. Há pessoas que não cabem no binário antigo das palavras e buscam abrigo na linguagem. Procuram pronomes que não as aprisionem, flexões que não as excluam, vocábulos que reconheçam sua existência inteira. Não pedem permissão ao tempo, apenas caminham com ele.
Alguns temem que a língua se perca. Esquecem que perder seria deixar de escutar. O português não se desfaz quando acolhe, ele se expande. Cada inovação é uma respiração a mais, cada adaptação é um gesto de sobrevivência. Uma língua que não muda se fossiliza. Uma língua que se permite sentir continua pulsando.
Assim, o português contemporâneo segue como corpo vivo, tecido de história e de futuro. Em suas sílabas cabem memórias e possibilidades. Em suas transformações, a certeza de que falar é existir e de que existir exige, sempre, novas palavras.
Portanto, língua não é apenas um instrumento de comunicação; é também território simbólico, campo de disputas ideológicas e espaço de construção da identidade. Ao analisarmos criticamente a Língua Portuguesa sob as perspectivas da linguística, da história, da filosofia e da literatura, percebemos que ela se constitui como organismo vivo, em permanente transformação, atravessado por tensões sociais, políticas e estéticas.
A LÍNGUA COMO PROCESSO HISTÓRICO
A história do português remonta ao latim vulgar trazido pelos romanos à Península Ibérica, que, ao longo dos séculos, sofreu influências germânicas, árabes e, posteriormente, das línguas indígenas e africanas no contexto colonial. Como afirma Evanildo Bechara: “A língua é um patrimônio histórico-cultural que se constrói no uso e na tradição.”
Esse patrimônio, entretanto, nunca foi homogêneo. No Brasil, o português se formou no contato com o tupi, o iorubá, o quimbundo e tantas outras matrizes linguísticas. A língua que falamos é resultado de encontros e conflitos, de colonização e resistência.
O linguista Marcos Bagno enfatiza: “Não existe erro em língua, existe inadequação a determinada situação de uso.”
Essa afirmação desloca a discussão do campo moral para o campo sociolinguístico, denunciando o preconceito linguístico como forma de exclusão social.
LINGUAGEM E PODER
Sob uma perspectiva filosófica, a língua é também instrumento de poder. Como nos ensinou Michel Foucault, “o discurso não é simplesmente aquilo que traduz as lutas ou os sistemas de dominação, mas aquilo por que, e pelo que, se luta”. A norma padrão, frequentemente apresentada como única forma legítima da língua, torna-se mecanismo de controle simbólico.
No Brasil, o ensino tradicional da gramática normativa muitas vezes ignorou a pluralidade linguística do país. A imposição de um modelo idealizado reforçou desigualdades históricas. Nesse sentido, a linguística moderna propõe uma visão descritiva, não prescritiva, reconhecendo a legitimidade das variedades populares.
A LÍNGUA COMO CRIAÇÃO LITERÁRIA
Se na história a língua é conquista e conflito, na literatura ela é reinvenção. Fernando Pessoa escreveu: “Minha pátria é a língua portuguesa.”
Essa célebre declaração sintetiza a dimensão existencial do idioma. A língua ultrapassa fronteiras geográficas e torna-se espaço de pertencimento simbólico.
Já Carlos Drummond de Andrade, em tom reflexivo, afirmou: “Lutar com palavras é a luta mais vã.”
Aqui, a língua aparece como matéria resistente, que exige do poeta esforço e lapidação. A literatura revela o potencial criativo do idioma, sua capacidade de recriar o mundo.
Guimaraes Rosa levou essa reinvenção ao extremo, expandindo o léxico e explorando as possibilidades sonoras e semânticas do português. Sua obra demonstra que a língua não é estática, mas campo de experimentação.
FILOSOFIA DA LINGUAGEM: ENTRE O SER E O DIZER
Do ponto de vista filosófico, a linguagem constitui o próprio pensamento. Não pensamos fora das palavras. A tradição filosófica moderna aponta que os limites da linguagem são também os limites da compreensão do mundo.
No contexto lusófono, a reflexão sobre o idioma sempre esteve associada à identidade cultural. A língua portuguesa conecta continentes — Europa, América, África e Ásia — mas carrega as marcas de processos coloniais que precisam ser criticamente revisitados.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A análise crítica da Língua Portuguesa revela que ela é, simultaneamente, herança histórica, instrumento de poder, expressão estética e fundamento do pensamento. Não se trata apenas de preservar normas, mas de compreender processos. Não se trata apenas de ensinar regras, mas de formar consciência linguística.
A língua é viva porque é humana. E, sendo humana, é plural, contraditória e criativa. Defendê-la não significa congelá-la, mas permitir que continue sendo espaço de diálogo, diversidade e poesia.
REFERÊNCIAS
ANDRADE, Carlos Drummond de. A rosa do povo.
BAGNO, Marcos. Preconceito linguístico: o que é, como se faz.
BECHARA, Evanildo. Moderna Gramática Portuguesa.
FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso.
PESSOA, Fernando. Livro do Desassossego.
ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas.

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