QUANDO OS LOUCOS CONDUZEM OS CEGOS
História
de Roberto Amaral
Não
são apenas os vivos que nos atormentam, os mortos também. “Le
mort saisit le vif!”. — Karl Marx, Prólogo à primeira
edição de O capital.
Nascemos como território aberto:
feitoria, praias, água, alimento e sombra para o repouso de
corsários de todas as bandeiras; o mundo chegava para a aventura
predatória dos séculos seguintes de apropriação da terra dada, a
caça à natureza e aos homens, povos nativos preados e, com a
Colônia, a escravidão de negros importados para o eito e a morte
antecipada.
Bem mais tarde emerge, sem animação
orgânica, uma ideia de povo em busca de nação, ausente o projeto
de colonizador (com o qual não podia arcar a decadência
irreversível do império lusitano); historiadores apressados
referem-se às lutas travadas por portugueses, africanos
escravizados, tropas de brancos pobres e indígenas escravizados como
o início da construção de uma nacionalidade, nada obstante a
impossibilidade de identificar a mínima consciência de
pertencimento comum na expulsão da experiência do príncipe de
Nassau (1654), modernizante em face da passividade portuguesa, ainda
que não cogitasse de qualquer sorte de mobilidade social, ou da
criação de mercado interno. Não havia uma nação a contrapor-se
ao sonho holandês na América. Ora, nossa "alma" não
conhecia a pátria. Éramos algo como uma malha de feitorias sob a
coroa do pequeno Estado português, em trânsito entre o domínio
espanhol e o britânico, cuja preeminência nos condicionaria até o
fim da Primeira Grande Guerra (1914–1918) e a ascensão dos EUA,
que se tornam a unipotência capitalista após a queda do Muro de
Berlim e a capitulação da URSS. Continuávamos na periferia, como
se cumpríssemos um determinismo que a leitura dialética da História
não justifica.
Antes, no nascedouro do século XVI,
na periferia do mercantilismo do capitalismo nascente, ainda
pré-industrial e pré-estatal. Agora, na periferia do capitalismo
pós-industrial, sob a égide de um imperialismo Moloch. Em 1627, em
sua História do Brasil, o sábio e precursor Frei Vicente de
Salvador profligava as limitações estratégicas do português:
desapetrechado política e economicamente, pugnava salvar-se mediante
a conservação da terra apossada sem luta, e salvá-la por meio de
tratados negociados com nações mais poderosas: “Da largura que a
terra do Brasil tem para o sertão não trato, porque até agora não
houve quem a andasse por negligência dos portugueses, que, sendo
grandes conquistadores de terras, não aproveitam delas, mas
contentam-se de andar arranhando ao longo do mar como caranguejos”.
Vida social, nenhuma. Vida política,
tão-só a necessária para assegurar o domínio português: os
primeiros agentes do fisco, os primeiros militares, os primeiros
fortes de defesa, os primeiros agentes da justiça reinol; os padres
e frades catequizando os catecúmenos, desculturalizando o gentio e o
negro, matando suas almas; os jesuítas catequizando, educando,
aportuguesando e construindo, território afora, suas “repúblicas”,
seus aldeamentos, suas “missões”, um modelo de colonização
clerical que palmilhou quase todo o país daqueles idos; caminhando
desde a Amazônia e o Centro-Oeste ao Rio Grande do Sul, à Argentina
e ao Paraguai; chegaram a mobilizar entre 250 e 300 mil guaranis, até
a fúria pombalina que os expulsou do Brasil.
Nascemos na periferia do mercantilismo
do século XVI, do capitalismo nascente, ainda pré-industrial e
pré-estatal, e nossos donos de então, pais e mães dos donos de
hoje, logo se aclimataram no ócio, pois havia índios preados para o
trabalho, africanos às mãos cheias para o eito e a morte antes do
tempo. A história oficial consagrou como “heróis da Pátria” os
genocidas das Entradas e Bandeiras. Nesse Brasil, onde havia
produção, só o escravo trabalhava, o que não explica tudo, mas
sugere um campo de reflexão. Darcy Ribeiro lembra a carne e a alma
dos indígenas e dos negros que os brancos caçavam para produzir e
poder acumular suas riquezas. E madeira, e pedras, e algodão, e mais
isso e mais aquilo, tudo o que o mercado europeu requeria, pois aqui,
em se plantando (pelo braço escravizado), tudo dava, tudo dá; e
logramos plantar cana e produzir açúcar para exportar à Europa, de
onde importávamos tudo: manufaturados, ideologia, valores, cultura,
visão de mundo, por intermédio dos entrepostos portugueses que nos
exploravam como monopólio comercial.
O “brasileiro” é o português que
vem “fazer a América”, enriquecer e voltar a Portugal para
construir igrejas, e será personagem de Camilo Castelo Branco. O
proprietário de engenho é um simples feitor muito rico. Não é um
empreendedor, não é um pioneiro. É um homem da terra, reacionário,
violento, inculto; mas, supunha, falava com Deus; precatado, mantinha
em casa uma Capela devotada ao Cristo ou à Imaculada Cinceição
onde se casavam os herfeiros com os herdeiros das terras vizinhas.
São essas as nossas raízes, as de um Estado classista moderno na
sua abjeta concentração de renda e espoliação social; raízes que
explicam ainda o mal de origem que intentam negacear: construído aos
trancos e barrancos, isento de projeto de ser, desprovido de destino,
o Brasil não é, está sendo; algo permanentemente em elaboração,
sem bússola, sem azimute, talvez com ponto de partida, mas jamais
dispondo de horizonte de chegada: sem régua e sem compasso,
manipulado pela dialética das circunstâncias nas quais não ousa
intervir.
Na transição para o capitalismo, a
burguesia que nos coube já não era revolucionária quando aqui
desembarcou, e jamais seria nacional, condicionada na modernidade
pelos interesses do capitalismo globalizado. Jamais se desapartou de
suas origens: cultiva o longo passado colonial e escravagista de seus
avoengos. Assim vê o mundo e nele se vê. Essas, as nossas
circunstâncias perdurantes. Sem noção de si, carecemos da noção
de mundo; sem projeto de ser, não temos porto de chegada. Ficamos
com os argonautas, a navegar, porque navegar é preciso. E la nave
va, mas não nos salva da alienação: a crise é objetiva,
material, concreta e nos fisga no contrapé da irrelevância.
Assim, quietos, nos escondemos diante
da crise, que é uma crise nossa, presente: ela está no mundo, mas
está diretamente na América do Sul e no Brasil. Fruto da formação
histórica que acima se tentou resumir, nossa classe dominante,
trêfega e traficante, não tem condições de dialogar com a
realidade; alienada e ideologicamente colonizada, não se identifica
com a nação, não a pode compreender. Nada se lhe deve cobrar ou
esperar. Mas talvez ainda seja pertinente chamar à cena a “sociedade
civil”. Ou a academia, silente, omissa. Não há condições de
cobrar o que quer que seja do movimento sindical, mas talvez ainda
seja pertinente exigir uma postura digna dos partidos que ainda
integram essa larga avenida que reúne progressistas, esquerda e
centro. Era e ainda é justo, e ainda oportuno, exigir de nosso
governo um mínimo de ação objetiva, ou seja, algo além das boas
notas expedidas pela boa burocracia do Itamaraty. Que errou, com o
terceiro andar do Palácio do Planalto, já lá atrás, reduzindo a
agressão imperialista a uma chantagem tarifária, ao fim e ao cabo
delegando as negociações de Estado, que haveriam de ser políticas,
à intermediação de produtores brasileiros de carne e outras
commodities com autoridades dos EUA, em escritórios de advocacia e
lobby de Washington. Soa mal a dificuldade do nosso governo de dizer
o que pensa sobre o condomínio que os EUA querem instalar sobre os
escombros de Gaza.
É preciso salvar a política “ativa
e altiva” de Celso Amorim. A questão, como é sabido, volta para
seu campo nuclear, que é a política, de onde, a rigor, jamais saiu.
Na crise que o imperialismo agrava a cada dia — Europa, Oriente
Médio, Palestina e Israel, Rússia, Ucrânia, Irã,
Dinamarca/Groenlândia, América Latina e, nela, tanto a América do
Sul, onde estamos, convivendo com a ascensão da extrema-direita, que
nos promete isolar, quanto com a invasão da Venezuela, na nossa
fronteira amazônica, o que não é irrelevante, em qualquer momento
e em qualquer circunstância. Que dizer quando o chefe da diplomacia
de guerra da Casa Branca anuncia como nova política a retomada do
“grande quintal”, proclamados o fim da política, o fim do
multilateralismo, o fim dos organismos internacionais? O essencial
está na ululante falência do direito internacional; inane. A nova
ordem é a lei do mais forte, o novo é o Velho Oeste. Soberania
nacional não é um valor moral, nem muito menos jurídico, ensina a
doutrina, ensina a vida; é uma força objetiva, concreta, palpável,
que depende exclusivamente de si. A esse predicado os estrategistas
chamam de capacidade de dissuasão. De que carecemos. Porque nossas
forças não estão adequadamente armadas, porque sua formação
ideológica é subalterna aos interesses do imperialismo, porque o
governo ainda não conseguiu construir com a sociedade sua política
de defesa.
Porque, ao final, carecemos de um
projeto para o país. Sem projeto de destino, sem causa, o Brasil,
que já aspirou papel de liderança no plano internacional, vê-se
reduzido à condição de objeto: peão em meio a outros peões que
se multiplicam no tabuleiro de xadrez, onde reina o soberano imóvel,
decidindo os destinos do mundo. Lamentavelmente, vítimas de crassa
falência analítica — como se a história não estivesse à nossa
disposição para ensinar aos que querem saber —, não nos damos
conta do quadro de realidade, como se ele fosse apenas um drama
estranho ao nosso, representado noutro teatro. Ora, o enredo é
único, a representação é única, o elenco é único, a plateia é
única: somos nós. Os tempos de hoje trazem os tempos sempre
contemporâneos de Shakespeare e seu Rei Lear, na fala de Gloucester
(Ato IV, Cena 1): “É a peste do nosso tempo: quando os loucos
conduzem os cegos”.