segunda-feira, 4 de maio de 2026

QUANDO OS LOUCOS CONDUZEM OS CEGOS_História de Roberto Amaral


QUANDO OS LOUCOS CONDUZEM OS CEGOS

História de Roberto Amaral

Não são apenas os vivos que nos atormentam, os mortos também. “Le mort saisit le vif!”. — Karl Marx, Prólogo à primeira edição de O capital.


Nascemos como território aberto: feitoria, praias, água, alimento e sombra para o repouso de corsários de todas as bandeiras; o mundo chegava para a aventura predatória dos séculos seguintes de apropriação da terra dada, a caça à natureza e aos homens, povos nativos preados e, com a Colônia, a escravidão de negros importados para o eito e a morte antecipada.

Bem mais tarde emerge, sem animação orgânica, uma ideia de povo em busca de nação, ausente o projeto de colonizador (com o qual não podia arcar a decadência irreversível do império lusitano); historiadores apressados referem-se às lutas travadas por portugueses, africanos escravizados, tropas de brancos pobres e indígenas escravizados como o início da construção de uma nacionalidade, nada obstante a impossibilidade de identificar a mínima consciência de pertencimento comum na expulsão da experiência do príncipe de Nassau (1654), modernizante em face da passividade portuguesa, ainda que não cogitasse de qualquer sorte de mobilidade social, ou da criação de mercado interno. Não havia uma nação a contrapor-se ao sonho holandês na América. Ora, nossa "alma" não conhecia a pátria. Éramos algo como uma malha de feitorias sob a coroa do pequeno Estado português, em trânsito entre o domínio espanhol e o britânico, cuja preeminência nos condicionaria até o fim da Primeira Grande Guerra (1914–1918) e a ascensão dos EUA, que se tornam a unipotência capitalista após a queda do Muro de Berlim e a capitulação da URSS. Continuávamos na periferia, como se cumpríssemos um determinismo que a leitura dialética da História não justifica.

Antes, no nascedouro do século XVI, na periferia do mercantilismo do capitalismo nascente, ainda pré-industrial e pré-estatal. Agora, na periferia do capitalismo pós-industrial, sob a égide de um imperialismo Moloch. Em 1627, em sua História do Brasil, o sábio e precursor Frei Vicente de Salvador profligava as limitações estratégicas do português: desapetrechado política e economicamente, pugnava salvar-se mediante a conservação da terra apossada sem luta, e salvá-la por meio de tratados negociados com nações mais poderosas: “Da largura que a terra do Brasil tem para o sertão não trato, porque até agora não houve quem a andasse por negligência dos portugueses, que, sendo grandes conquistadores de terras, não aproveitam delas, mas contentam-se de andar arranhando ao longo do mar como caranguejos”.

Vida social, nenhuma. Vida política, tão-só a necessária para assegurar o domínio português: os primeiros agentes do fisco, os primeiros militares, os primeiros fortes de defesa, os primeiros agentes da justiça reinol; os padres e frades catequizando os catecúmenos, desculturalizando o gentio e o negro, matando suas almas; os jesuítas catequizando, educando, aportuguesando e construindo, território afora, suas “repúblicas”, seus aldeamentos, suas “missões”, um modelo de colonização clerical que palmilhou quase todo o país daqueles idos; caminhando desde a Amazônia e o Centro-Oeste ao Rio Grande do Sul, à Argentina e ao Paraguai; chegaram a mobilizar entre 250 e 300 mil guaranis, até a fúria pombalina que os expulsou do Brasil.

Nascemos na periferia do mercantilismo do século XVI, do capitalismo nascente, ainda pré-industrial e pré-estatal, e nossos donos de então, pais e mães dos donos de hoje, logo se aclimataram no ócio, pois havia índios preados para o trabalho, africanos às mãos cheias para o eito e a morte antes do tempo. A história oficial consagrou como “heróis da Pátria” os genocidas das Entradas e Bandeiras. Nesse Brasil, onde havia produção, só o escravo trabalhava, o que não explica tudo, mas sugere um campo de reflexão. Darcy Ribeiro lembra a carne e a alma dos indígenas e dos negros que os brancos caçavam para produzir e poder acumular suas riquezas. E madeira, e pedras, e algodão, e mais isso e mais aquilo, tudo o que o mercado europeu requeria, pois aqui, em se plantando (pelo braço escravizado), tudo dava, tudo dá; e logramos plantar cana e produzir açúcar para exportar à Europa, de onde importávamos tudo: manufaturados, ideologia, valores, cultura, visão de mundo, por intermédio dos entrepostos portugueses que nos exploravam como monopólio comercial.

O “brasileiro” é o português que vem “fazer a América”, enriquecer e voltar a Portugal para construir igrejas, e será personagem de Camilo Castelo Branco. O proprietário de engenho é um simples feitor muito rico. Não é um empreendedor, não é um pioneiro. É um homem da terra, reacionário, violento, inculto; mas, supunha, falava com Deus; precatado, mantinha em casa uma Capela devotada ao Cristo ou à Imaculada Cinceição onde se casavam os herfeiros com os herdeiros das terras vizinhas. São essas as nossas raízes, as de um Estado classista moderno na sua abjeta concentração de renda e espoliação social; raízes que explicam ainda o mal de origem que intentam negacear: construído aos trancos e barrancos, isento de projeto de ser, desprovido de destino, o Brasil não é, está sendo; algo permanentemente em elaboração, sem bússola, sem azimute, talvez com ponto de partida, mas jamais dispondo de horizonte de chegada: sem régua e sem compasso, manipulado pela dialética das circunstâncias nas quais não ousa intervir.

Na transição para o capitalismo, a burguesia que nos coube já não era revolucionária quando aqui desembarcou, e jamais seria nacional, condicionada na modernidade pelos interesses do capitalismo globalizado. Jamais se desapartou de suas origens: cultiva o longo passado colonial e escravagista de seus avoengos. Assim vê o mundo e nele se vê. Essas, as nossas circunstâncias perdurantes. Sem noção de si, carecemos da noção de mundo; sem projeto de ser, não temos porto de chegada. Ficamos com os argonautas, a navegar, porque navegar é preciso. E la nave va, mas não nos salva da alienação: a crise é objetiva, material, concreta e nos fisga no contrapé da irrelevância.

Assim, quietos, nos escondemos diante da crise, que é uma crise nossa, presente: ela está no mundo, mas está diretamente na América do Sul e no Brasil. Fruto da formação histórica que acima se tentou resumir, nossa classe dominante, trêfega e traficante, não tem condições de dialogar com a realidade; alienada e ideologicamente colonizada, não se identifica com a nação, não a pode compreender. Nada se lhe deve cobrar ou esperar. Mas talvez ainda seja pertinente chamar à cena a “sociedade civil”. Ou a academia, silente, omissa. Não há condições de cobrar o que quer que seja do movimento sindical, mas talvez ainda seja pertinente exigir uma postura digna dos partidos que ainda integram essa larga avenida que reúne progressistas, esquerda e centro. Era e ainda é justo, e ainda oportuno, exigir de nosso governo um mínimo de ação objetiva, ou seja, algo além das boas notas expedidas pela boa burocracia do Itamaraty. Que errou, com o terceiro andar do Palácio do Planalto, já lá atrás, reduzindo a agressão imperialista a uma chantagem tarifária, ao fim e ao cabo delegando as negociações de Estado, que haveriam de ser políticas, à intermediação de produtores brasileiros de carne e outras commodities com autoridades dos EUA, em escritórios de advocacia e lobby de Washington. Soa mal a dificuldade do nosso governo de dizer o que pensa sobre o condomínio que os EUA querem instalar sobre os escombros de Gaza.

É preciso salvar a política “ativa e altiva” de Celso Amorim. A questão, como é sabido, volta para seu campo nuclear, que é a política, de onde, a rigor, jamais saiu. Na crise que o imperialismo agrava a cada dia — Europa, Oriente Médio, Palestina e Israel, Rússia, Ucrânia, Irã, Dinamarca/Groenlândia, América Latina e, nela, tanto a América do Sul, onde estamos, convivendo com a ascensão da extrema-direita, que nos promete isolar, quanto com a invasão da Venezuela, na nossa fronteira amazônica, o que não é irrelevante, em qualquer momento e em qualquer circunstância. Que dizer quando o chefe da diplomacia de guerra da Casa Branca anuncia como nova política a retomada do “grande quintal”, proclamados o fim da política, o fim do multilateralismo, o fim dos organismos internacionais? O essencial está na ululante falência do direito internacional; inane. A nova ordem é a lei do mais forte, o novo é o Velho Oeste. Soberania nacional não é um valor moral, nem muito menos jurídico, ensina a doutrina, ensina a vida; é uma força objetiva, concreta, palpável, que depende exclusivamente de si. A esse predicado os estrategistas chamam de capacidade de dissuasão. De que carecemos. Porque nossas forças não estão adequadamente armadas, porque sua formação ideológica é subalterna aos interesses do imperialismo, porque o governo ainda não conseguiu construir com a sociedade sua política de defesa.

Porque, ao final, carecemos de um projeto para o país. Sem projeto de destino, sem causa, o Brasil, que já aspirou papel de liderança no plano internacional, vê-se reduzido à condição de objeto: peão em meio a outros peões que se multiplicam no tabuleiro de xadrez, onde reina o soberano imóvel, decidindo os destinos do mundo. Lamentavelmente, vítimas de crassa falência analítica — como se a história não estivesse à nossa disposição para ensinar aos que querem saber —, não nos damos conta do quadro de realidade, como se ele fosse apenas um drama estranho ao nosso, representado noutro teatro. Ora, o enredo é único, a representação é única, o elenco é único, a plateia é única: somos nós. Os tempos de hoje trazem os tempos sempre contemporâneos de Shakespeare e seu Rei Lear, na fala de Gloucester (Ato IV, Cena 1): “É a peste do nosso tempo: quando os loucos conduzem os cegos”.


sábado, 2 de maio de 2026

Consciência Ética em Tempos de Degradação Política: o Brasil entre o Poder e a Ruína_Professor Gleideistone Antunes)

 


Consciência Ética em Tempos de Degradação Política: o Brasil entre o Poder e a Ruína

*Professor Gleidistone Antunes


O Dia Nacional da Ética é celebrado no Brasil, hoje - 2 de maio, instituído para promover a reflexão sobre conduta íntegra, honesta e responsável nas relações pessoais, profissionais e na administração pública. A data incentiva o combate à corrupção, a transparência e a construção de uma sociedade mais justa e respeitosa.


Celebrar o Dia Nacional da Ética, em 2 de maio, no Brasil contemporâneo, impõe menos um gesto comemorativo do que um exercício rigoroso de autocrítica. A ética, enquanto reflexão filosófica sobre o agir humano, não se limita a códigos formais ou discursos protocolários; ela se enraíza na consciência, isto é, na capacidade de discernir entre o justo e o injusto em situações concretas. No entanto, o que se observa no cenário nacional é um progressivo esvaziamento dessa consciência ética, substituída por uma racionalidade instrumental que reduz o bem comum a moeda de troca. A política, que deveria ser o espaço privilegiado da realização da justiça, converte-se, assim, em arena de interesses privados, onde a aparência de legalidade frequentemente encobre práticas moralmente degradantes.


No interior do Congresso Nacional, essa crise se manifesta de modo particularmente agudo. As articulações políticas, muitas vezes marcadas por negociações opacas, fisiologismo e clientelismo, revelam uma lógica de poder que se afasta da responsabilidade pública. O mandato, que deveria expressar a vontade popular, torna-se instrumento de barganha, submetido a alianças circunstanciais que priorizam a manutenção de privilégios e a autopreservação de grupos políticos. Tal dinâmica não apenas corrói a confiança nas instituições democráticas, mas também banaliza a transgressão ética, naturalizando comportamentos que, em outros contextos, seriam amplamente condenados. A ética, nesse ambiente, deixa de ser princípio orientador e passa a ser mero ornamento retórico.


As consequências dessa ruína moral e política recaem, de forma direta e cruel, sobre o povo brasileiro. A precarização dos serviços públicos, o aprofundamento das desigualdades sociais e a sensação generalizada de injustiça são sintomas de um sistema que perdeu seu horizonte ético.


Quando decisões fundamentais são tomadas com base em interesses escusos, o resultado é a perpetuação de um ciclo de exclusão e desamparo. Recuperar a consciência ética, portanto, não é apenas uma exigência filosófica, mas uma urgência histórica: trata-se de reconstituir o vínculo entre política e responsabilidade, resgatando a ideia de que governar é, antes de tudo, um compromisso com a dignidade humana e com a construção de uma sociedade mais justa e, portanto igualitária.


*Professor Gleidistone Antunes é blogueiro, poeta e leciona Teoria da Literatura na Faculdade de Formação de Professores da Mata Sul/PE.

quarta-feira, 4 de março de 2026

Entendendo o Conflito entre Israel e Palestina: História, Causas, Impactos e Possíveis Caminhos para a Paz (ANTUNES, Gleidistone)

 


Entendendo o Conflito entre Israel e Palestina:

História, Causas, Impactos e Possíveis Caminhos para a Paz

ANTUNES, Gleidistone

1. Introdução


O conflito entre Israel e os palestinos é um dos mais duradouros e complexos do mundo moderno. Suas raízes estão ligadas a disputas sobre território, identidade nacional, soberania e segurança — envolvendo milhões de pessoas que vivem em uma das regiões mais sensíveis geopolítica e religiosamente do planeta. Segundo especialistas, a disputa começou a se cristalizar no século XX e continua até hoje com graves consequências para civis de ambos os lados.


2. Breve Histórico Político - Origem e criação do Estado de Israel


Até o início do século XX, a região conhecida como Palestina estava sob administração do Império Otomano. Com o fim da Primeira Guerra Mundial, a Grã-Bretanha passou a controlar a área sob mandato internacional; época em que cresceu o movimento sionista — que defendia um lar nacional para o povo judeu na Palestina — e também movimentos árabes palestinos.

Em 1947, a Organização das Nações Unidas (ONU) propôs um plano de partilha do território em dois Estados — um judeu e um árabe — com Jerusalém sob administração internacional. Os líderes judaicos aceitaram a proposta, mas os líderes árabes e palestinos rejeitaram, alegando que ela dividia injustamente a terra sem consentimento pleno dos habitantes locais.

Em 14 de maio de 1948, Israel declarou sua independência, desencadeando a Primeira Guerra Árabe-Israelense e uma série de confrontos posteriores. Muitos palestinos foram deslocados ou se tornaram refugiados no processo que os palestinos chamam de Nakba (“catástrofe”).


Ocupação e territórios disputados


Em 1967, durante a chamada Guerra dos Seis Dias, Israel ocupou a Cisjordânia, Jerusalém Oriental e a Faixa de Gaza — territórios que os palestinos reivindicam como parte de seu futuro Estado.

Nas décadas seguintes, ocorreram negociações, confrontos e tentativas de acordo, como os Acordos de Oslo (1993) que visavam estabelecer um processo de paz negociante e autonomia palestina em partes da Cisjordânia e de Gaza, mas sem resolver as questões centrais de fronteiras, refugiados ou Jerusalém de forma final.


3. Dimensões Social e Econômica - Vida cotidiana e desigualdades


A desigualdade econômica entre israelenses e palestinos é profunda. Relatórios apontam que o Produto Interno Bruto (PIB) per capita de Israel é muito maior do que o da Cisjordânia e de Gaza — reflexo de décadas de acesso desigual a recursos, infraestruturas e mercados.

No caso palestino, bloqueios, restrições de circulação, conflito constante e falta de um Estado plenamente funcional agravam as condições de vida. Isso tem impacto direto no acesso a serviços essenciais como saúde, educação e emprego.


4. Entendendo a Perspectiva dos Palestinos e dos Israelenses - Narrativas e percepções


Para muitos palestinos, a criação de Israel e a subsequente ocupação são vistas como injustiça histórica e violação de direitos nacionais e humanos. Líderes e estudiosos palestinos expressam que sua luta é por autodeterminação e fim da ocupação.

Por outro lado, muitos israelenses citam a necessidade de segurança diante de ameaças militares, grupos armados e histórico de ataques contra civis como justificativa para políticas de controle territorial e militar. Esta visão é frequentemente enfatizada em debates políticos internos de Israel e nas narrativas oficiais. (Veja seções de notícias recentes sobre política israelense.)


5. Por Que o Conflito Persiste?


Alguns fatores que dificultam a resolução incluem:


  • Questões territoriais não resolvidas, como a soberania sobre Jerusalém Oriental e fronteiras definitivas.

  • Refugiados palestinos e o direito de retorno.

  • Assentamentos israelenses na Cisjordânia considerados ilegais por grande parte da comunidade internacional.

  • Desconfiança histórica e memória de violência entre as partes.


Especialistas apontam que o prolongamento do conflito alimenta um ciclo de hostilidade que torna qualquer solução difícil sem compromissos significativos de ambos os lados.


6. Caminhos e Soluções Propostas - Solução de dois Estados


A proposta internacional mais discutida é a solução de dois Estados: um Estado palestino independente coexistindo pacificamente com Israel, com fronteiras negociadas baseadas em 1967, segurança garantida para ambos e resolução das questões de refugiados.

Essa ideia foi a base dos Acordos de Oslo e de negociações posteriores, mas enfrenta desafios práticos e políticos, especialmente com expansão de assentamentos e posições divergentes dentro de cada sociedade.


Abordagens alternativas


Alguns analistas discutem modelos diferentes, como a chamada solução de três Estados (onde partes palestinas seriam integradas parcialmente a países vizinhos ou teriam características administrativas distintas), embora tal proposta não seja amplamente apoiada.

Outros estudos acadêmicos exploram métodos para facilitar diálogo entre comunidades israelenses e palestinas, incluindo abordagens baseadas em mediação civil e tecnologia de comunicação para reduzir polarizações sociais.


7. Conclusão


O conflito entre Israel e Palestina é um tema complexo que envolve história, identidade, política, economia e memória coletiva. A violência, deslocamentos e desigualdades vividas por civis tanto em Israel quanto nos territórios palestinos mostram que soluções duradouras exigirão compromisso, diálogo e reconhecimento mútuo de direitos e sofrimentos. Entender múltiplas perspectivas e se basear em análises históricas e acadêmicas é essencial para qualquer discussão séria sobre paz.


Referências e Bibliografia (para aprofundar o estudo) - Fontes citadas


  • “Entenda as raízes históricas do conflito Israel x Palestina”, Capricho — resumo histórico sobre a criação do Estado de Israel e o contexto de 1948.

  • Acordos de Oslo — descrição do processo de negociações de paz entre Israel e líderes palestinos.

  • Artigo Reuters sobre a solução de dois Estados e desafios atuais na Cisjordânia.

  • Discussão acadêmica sobre abordagem de paz e diálogo entre comunidades israelenses e palestinas.

  • Relatório sobre desigualdade econômica entre Israel e territórios palestinos.

  • “Solução dos Três Estados” como alternativa teórica ao conflito.


quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

ARGENTINA À BEIRA DA ESCRAVIDÃO PROFESSOR GLEIDISTONE ANTUNES


 ARGENTINA À BEIRA DA ESCRAVIDÃO

PROFESSOR GLEIDISTONE ANTUNES


Os parlamentares argentinos, supostamente comparados pela bagatela de milhões, como acontece no Brasil, aprovaram a nova reforma trabalhista impulsionada pelo governo ultradireitista de Javier Milei. Entre as mudanças discutidas estão a ampliação da flexibilidade de jornada trabalhista de 8h para 12h, alteração nas regras de horas extras e sem remuneração, ajustes em indenizações e o fim de direitos trabalhistas históricos. Para os defensores da medida, trata-se de modernização da economia e tentativa de atrair investimentos num país que vive há décadas sob inflação crônica, dívida elevada e estagnação da produtividade. Para os críticos, é o fim dos direitos dos trabalhadores e acelerada transferência de risco do empregador para o lombo do trabalhador.

O discurso do governo é claro: menos direitos aos trabalhadores mais mercado, mais competitividade. A lógica é que direitos trabalhistas considerados “custos elevados” afastam empresas, travam contratações e sufocam crescimento. O problema é que essa visão ignora o impacto social imediato. Quando se amplia jornada de trabalho, aumentam-se as compensações dos patrões e reduzem-se as garantias do povo trabalhador, e o peso recai diretamente sobre as costas de quem depende do salário para sobreviver.

Há dois campos visíveis na Argentina neste momento. De um lado, o setor financeiro e parte do empresariado, que veem na reforma a chance de demissão em massa e de se reduzir custos e aumentar margem de lucro. De outro, trabalhadores e sindicatos que enxergam erosão de proteção social num país já fragilizado economicamente. O conflito não é apenas econômico. É ideológico. É sobre qual modelo de Estado deve prevalecer.

Mas existe uma questão central que não pode ser ignorada: Javier Milei foi eleito. E seu partido consolidou apoio legislativo. O programa liberal radical que vai contra o povo nunca foi escondido. A promessa sempre foi demitir e cortar gastos, acabar com as estatais e flexibilizar regras para o patronato. O choque não está na coerência do governo. Está no impacto real quando a teoria vira prática.

A Argentina está vivendo um experimento econômico profundo. Pode gerar crescimento no médio prazo? Possivelmente não. Pode ampliar desigualdade no curto prazo? Já está gerando. Reformas estruturais quase nunca são indolores e quem senta as dores é o povo. A pergunta que fica é: qual será o custo social dessa transição e quem vai suportar o peso maior? Com toda a certeza, o povo é que vai pagar.

Para o Brasil, a lição não é copiar mas a de demonizar automaticamente o posicionamento do governo argentino. A lição é entender que cada escolha eleitoral carrega consequências concretas e prejudiciais ao povo. Modelos econômicos diferentes produzem resultados diferentes — e também impactos sociais diferentes. O debate precisa ser de informações racionais, não emocional. Porque no fim das contas, o que está em jogo não é apenas política. É a vida cotidiana de milhões de pessoas inocentes que apenas terem seus direitos garantidos, o que não ocorre mais na Argentina, e viver dignamente.


Tenho dito, senhoras e senhores!


quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

A LÍNGUA PORTUGUESA: ENTRE A HISTÓRIA, O PODER E A POESIA Professor Gleidistone Antunes

 


A LÍNGUA PORTUGUESA: ENTRE A HISTÓRIA, 

O PODER E A POESIA

Professor Gleidistone Antunes


O português não é uma pedra antiga cravada no tempo. É rio. Corre entre séculos, atravessa corpos, aprende novos nomes para aquilo que antes não sabia nomear. Carrega na corrente as vozes de quem chegou, de quem foi silenciado, de quem insiste em permanecer. Uma língua vive porque respira na boca do povo e porque se move com o mundo.

Houve um tempo em que esse idioma chegou como maré imposta, cobrindo terras, calando cantos originários, desfazendo sons que pertenciam à floresta e ao vento. Muitas palavras ficaram soterradas, muitas gramáticas nasceram sem registro. Ainda assim, sob a superfície do português que se ensinou como oficial, persistem ecos indígenas, africanos, mestiços, sobrevivendo na música, na fé, na oralidade que se recusa a desaparecer.

Nenhuma língua viva aceita ser museu. As palavras envelhecem quando se recusam a escutar. O português permanece jovem porque muda. Porque se dobra às urgências de quem fala, porque se abre às identidades que se revelam. É no encontro entre a norma e a vida que o idioma se reinventa, não como ruptura, mas como continuidade em movimento.

Hoje, novas formas de nomear surgem como quem acende luz em territórios antes invisíveis. Há pessoas que não cabem no binário antigo das palavras e buscam abrigo na linguagem. Procuram pronomes que não as aprisionem, flexões que não as excluam, vocábulos que reconheçam sua existência inteira. Não pedem permissão ao tempo, apenas caminham com ele.

Alguns temem que a língua se perca. Esquecem que perder seria deixar de escutar. O português não se desfaz quando acolhe, ele se expande. Cada inovação é uma respiração a mais, cada adaptação é um gesto de sobrevivência. Uma língua que não muda se fossiliza. Uma língua que se permite sentir continua pulsando.

Assim, o português contemporâneo segue como corpo vivo, tecido de história e de futuro. Em suas sílabas cabem memórias e possibilidades. Em suas transformações, a certeza de que falar é existir e de que existir exige, sempre, novas palavras.

Portanto, língua não é apenas um instrumento de comunicação; é também território simbólico, campo de disputas ideológicas e espaço de construção da identidade. Ao analisarmos criticamente a Língua Portuguesa sob as perspectivas da linguística, da história, da filosofia e da literatura, percebemos que ela se constitui como organismo vivo, em permanente transformação, atravessado por tensões sociais, políticas e estéticas.


A LÍNGUA COMO PROCESSO HISTÓRICO


A história do português remonta ao latim vulgar trazido pelos romanos à Península Ibérica, que, ao longo dos séculos, sofreu influências germânicas, árabes e, posteriormente, das línguas indígenas e africanas no contexto colonial. Como afirma Evanildo Bechara: “A língua é um patrimônio histórico-cultural que se constrói no uso e na tradição.

Esse patrimônio, entretanto, nunca foi homogêneo. No Brasil, o português se formou no contato com o tupi, o iorubá, o quimbundo e tantas outras matrizes linguísticas. A língua que falamos é resultado de encontros e conflitos, de colonização e resistência.

O linguista Marcos Bagno enfatiza: “Não existe erro em língua, existe inadequação a determinada situação de uso.

Essa afirmação desloca a discussão do campo moral para o campo sociolinguístico, denunciando o preconceito linguístico como forma de exclusão social.


LINGUAGEM E PODER


Sob uma perspectiva filosófica, a língua é também instrumento de poder. Como nos ensinou Michel Foucault, “o discurso não é simplesmente aquilo que traduz as lutas ou os sistemas de dominação, mas aquilo por que, e pelo que, se luta”. A norma padrão, frequentemente apresentada como única forma legítima da língua, torna-se mecanismo de controle simbólico.

No Brasil, o ensino tradicional da gramática normativa muitas vezes ignorou a pluralidade linguística do país. A imposição de um modelo idealizado reforçou desigualdades históricas. Nesse sentido, a linguística moderna propõe uma visão descritiva, não prescritiva, reconhecendo a legitimidade das variedades populares.


A LÍNGUA COMO CRIAÇÃO LITERÁRIA


Se na história a língua é conquista e conflito, na literatura ela é reinvenção. Fernando Pessoa escreveu: “Minha pátria é a língua portuguesa.”

Essa célebre declaração sintetiza a dimensão existencial do idioma. A língua ultrapassa fronteiras geográficas e torna-se espaço de pertencimento simbólico.

Já Carlos Drummond de Andrade, em tom reflexivo, afirmou: “Lutar com palavras é a luta mais vã.”

Aqui, a língua aparece como matéria resistente, que exige do poeta esforço e lapidação. A literatura revela o potencial criativo do idioma, sua capacidade de recriar o mundo.

Guimaraes Rosa levou essa reinvenção ao extremo, expandindo o léxico e explorando as possibilidades sonoras e semânticas do português. Sua obra demonstra que a língua não é estática, mas campo de experimentação.


FILOSOFIA DA LINGUAGEM: ENTRE O SER E O DIZER


Do ponto de vista filosófico, a linguagem constitui o próprio pensamento. Não pensamos fora das palavras. A tradição filosófica moderna aponta que os limites da linguagem são também os limites da compreensão do mundo.

No contexto lusófono, a reflexão sobre o idioma sempre esteve associada à identidade cultural. A língua portuguesa conecta continentes — Europa, América, África e Ásia — mas carrega as marcas de processos coloniais que precisam ser criticamente revisitados.


CONSIDERAÇÕES FINAIS


A análise crítica da Língua Portuguesa revela que ela é, simultaneamente, herança histórica, instrumento de poder, expressão estética e fundamento do pensamento. Não se trata apenas de preservar normas, mas de compreender processos. Não se trata apenas de ensinar regras, mas de formar consciência linguística.

A língua é viva porque é humana. E, sendo humana, é plural, contraditória e criativa. Defendê-la não significa congelá-la, mas permitir que continue sendo espaço de diálogo, diversidade e poesia.


REFERÊNCIAS


ANDRADE, Carlos Drummond de. A rosa do povo.

BAGNO, Marcos. Preconceito linguístico: o que é, como se faz.

BECHARA, Evanildo. Moderna Gramática Portuguesa.

FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso.

PESSOA, Fernando. Livro do Desassossego.

ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas.


domingo, 28 de dezembro de 2025

SARAU CULTURAL EM SERRO AZUL ENCERRA O ANO CELEBRANDO A DIVERSIDADE ARTÍSTICA E O FORTALECIMENTO DA CULTURA PALMARENSE! Por Gleidistone Antunes

 

SARAU CULTURAL EM SERRO AZUL ENCERRA O ANO CELEBRANDO A DIVERSIDADE ARTÍSTICA E O FORTALECIMENTO DA 

CULTURA PALMARENSE!

Por Gleidistone Antunes

 

Na tarde do dia 28 de dezembro, o distrito de Serro Azul, na zona rural de Palmares, a 19 quilômetros da sede do município, foi palco do último Sarau Cultural do ano, um evento que reafirmou a força da arte como instrumento de identidade, inclusão e transformação social. Organizado pelo produtor cultural Ninho do Passarinho, o encontro reuniu artistas, educadores, crianças e moradores da comunidade em uma verdadeira celebração da cultura local.

 

Com uma programação diversa, o sarau destacou-se pela valorização da literatura, do teatro, da dança e da música, linguagens que dialogaram entre si e deram voz a diferentes expressões artísticas e culturais. A poesia teve papel central, com a participação de nomes como Daniele Dias, psicóloga da Rede Estadual de Educação de Pernambuco (SEE/PE), que trouxe sensibilidade e reflexão social por meio da palavra; e do poeta, ator e performer Luiz Santos, cuja atuação cênica ampliou os limites entre poesia e teatro.

 

 Um dos momentos mais simbólicos do evento foi a participação dos representantes indígenas Olomin Bem e Heloíza Virgínia, que realizaram uma leitura cênica abordando temas como a terra, a cultura e a ancestralidade dos povos originários, reforçando a importância da diversidade étnica e cultural na construção da identidade regional.

 

A programação contou ainda com a presença de Lucas Lima, vindo do município de Catende, que recitou um poema de Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa, estabelecendo um diálogo entre a literatura universal e o público local. Esteve presente no evento, representando os artesões a Dona Cícera, que usou da palavra para agradecer ao convite. Em seguida, foi a vez do poeta e acadêmico da Academia Palmarense de Letras (APLE), Tony Antunes, que contribuiu com sua produção poética, fortalecendo o elo entre as instituições culturais e os movimentos independentes.

 

Um dos momentos mais emocionantes do sarau ficou por conta de Pedrinho, conhecido como Pedrinho do Café da Rodoviária, pai do produtor cultural. Visivelmente emocionado, ele declamou o poema “No meio do caminho”, de Carlos Drummond de Andrade, e compartilhou com o público palavras de aprendizado, orgulho e amor pelo filho, ressaltando a postura coletiva, inclusiva e fraterna que marca a atuação cultural de Ninho do Passarinho.

  

    

O evento também dedicou espaço especial às crianças, com atividades lúdicas de desenho e pintura, orientadas pela arte-educadora Adrian Ádrian Ferreira, incentivando a criatividade e o contato com a arte desde a infância.

  



   




Encerrando o encontro, o produtor cultural Ninho do Passarinho agradeceu, emocionado, a presença de todos os participantes e colaboradores. O Sarau Cultural de Serro Azul despediu-se deixando a certeza de que a arte, quando partilhada de forma coletiva e inclusiva, fortalece laços, preserva memórias e reafirma a cultura como patrimônio vivo da cidade de Palmares.

  
FIM


Obs.: Para ver as fotos em maior tamanho, clique na imagem


segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

COMO FUNCIONA E AS PRINCIPAIS PROVAS DO ESQUEMA DE DESVIO DE COTA DE PARLAMENTARES DO PL, SEGUNDO A POLÍCIA FEDERAL

 

COMO FUNCIONA E AS PRINCIPAIS PROVAS DO ESQUEMA DE DESVIO DE COTA DE PARLAMENTARES DO PL,

SEGUNDO A POLÍCIA FEDERAL


A Polícia Federal (PF) investiga um esquema de desvio de recursos da Cota para o Exercício da Atividade Parlamentar (CEAP), conhecida como cota parlamentar, envolvendo os deputados federais Sóstenes Cavalcante (líder do PL na Câmara) e Carlos Jordy (ambos do PL-RJ).

A operação mais recente, chamada Galho Fraco, deflagrada em 19 de dezembro de 2025, é um desdobramento da Operação Rent a Car (de dezembro de 2024), que inicialmente mirou assessores.


Como funciona o esquema, segundo a PF


Os deputados contratavam serviços de locação de veículos (como da empresa Harue Locação de Veículos, considerada de fachada, com frota mínima e dissolvida irregularmente, mas que continuou recebendo pagamentos).

Esses contratos eram pagos com a cota parlamentar (verba pública reembolsada pela Câmara para despesas do mandato, como aluguel de carros).

Os serviços seriam simulados ou inexistentes, permitindo o desvio de recursos para benefício próprio dos envolvidos.

Assessores comissionados (como Adailton Oliveira dos Santos e Itamar de Souza Santana) atuavam como intermediários, dando aparência de legalidade e facilitando a devolução ou redirecionamento do dinheiro.

Para ocultar o dinheiro desviado, usavam a técnica de “smurfing” (saques e depósitos fracionados abaixo de R$ 10 mil para evitar alertas do sistema financeiro) e lavagem via empresas de fachada.

Os crimes apurados incluem peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa, com atuação coordenada entre parlamentares, servidores e particulares.

Principais provas apontadas pela PF


  • Mensagens de celulares apreendidos na Operação Rent a Car, indicando conluio entre assessores e possível envolvimento direto dos deputados.

  • Depoimentos de assessores e quebras de sigilo bancário/telemático, revelando transações suspeitas.

  • Movimentações financeiras incompatíveis: assessores e ligados movimentaram cerca de R$ 28,6 milhões (em alguns relatos até R$ 27-28 mi) em poucos anos, sem justificativa com suas rendas declaradas.

  • Pagamentos contínuos a empresas de fachada (ex.: Harue recebeu R$ 214 mil de Jordy e R$ 192 mil de Sóstenes entre 2020-2024 via cota).

  • Apreensão de R$ 430 mil em dinheiro vivo no apartamento de Sóstenes Cavalcante em Brasília (escondido em saco de lixo), durante buscas da Operação Galho Fraco.

  • Indícios de despesas “inexistentes ou irregulares” custeadas com a cota, confirmados por análise de documentos e fluxos financeiros.


Os deputados negam irregularidades: Sóstenes alega que o dinheiro apreendido vem de venda de imóvel e classifica a investigação como perseguição política; Jordy diz que os contratos eram legítimos para aluguel de veículos e que não fiscaliza frotas internas de empresas. A investigação continua, autorizada pelo STF ministro Flávio Dino), com quebras de sigilo e compartilhamento de dados com a Receita Federal.


REFERÊNCIA : https://antropofagista.com.br/