quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

ARGENTINA À BEIRA DA ESCRAVIDÃO PROFESSOR GLEIDISTONE ANTUNES


 ARGENTINA À BEIRA DA ESCRAVIDÃO

PROFESSOR GLEIDISTONE ANTUNES


Os parlamentares argentinos, supostamente comparados pela bagatela de milhões, como acontece no Brasil, aprovaram a nova reforma trabalhista impulsionada pelo governo ultradireitista de Javier Milei. Entre as mudanças discutidas estão a ampliação da flexibilidade de jornada trabalhista de 8h para 12h, alteração nas regras de horas extras e sem remuneração, ajustes em indenizações e o fim de direitos trabalhistas históricos. Para os defensores da medida, trata-se de modernização da economia e tentativa de atrair investimentos num país que vive há décadas sob inflação crônica, dívida elevada e estagnação da produtividade. Para os críticos, é o fim dos direitos dos trabalhadores e acelerada transferência de risco do empregador para o lombo do trabalhador.

O discurso do governo é claro: menos direitos aos trabalhadores mais mercado, mais competitividade. A lógica é que direitos trabalhistas considerados “custos elevados” afastam empresas, travam contratações e sufocam crescimento. O problema é que essa visão ignora o impacto social imediato. Quando se amplia jornada de trabalho, aumentam-se as compensações dos patrões e reduzem-se as garantias do povo trabalhador, e o peso recai diretamente sobre as costas de quem depende do salário para sobreviver.

Há dois campos visíveis na Argentina neste momento. De um lado, o setor financeiro e parte do empresariado, que veem na reforma a chance de demissão em massa e de se reduzir custos e aumentar margem de lucro. De outro, trabalhadores e sindicatos que enxergam erosão de proteção social num país já fragilizado economicamente. O conflito não é apenas econômico. É ideológico. É sobre qual modelo de Estado deve prevalecer.

Mas existe uma questão central que não pode ser ignorada: Javier Milei foi eleito. E seu partido consolidou apoio legislativo. O programa liberal radical que vai contra o povo nunca foi escondido. A promessa sempre foi demitir e cortar gastos, acabar com as estatais e flexibilizar regras para o patronato. O choque não está na coerência do governo. Está no impacto real quando a teoria vira prática.

A Argentina está vivendo um experimento econômico profundo. Pode gerar crescimento no médio prazo? Possivelmente não. Pode ampliar desigualdade no curto prazo? Já está gerando. Reformas estruturais quase nunca são indolores e quem senta as dores é o povo. A pergunta que fica é: qual será o custo social dessa transição e quem vai suportar o peso maior? Com toda a certeza, o povo é que vai pagar.

Para o Brasil, a lição não é copiar mas a de demonizar automaticamente o posicionamento do governo argentino. A lição é entender que cada escolha eleitoral carrega consequências concretas e prejudiciais ao povo. Modelos econômicos diferentes produzem resultados diferentes — e também impactos sociais diferentes. O debate precisa ser de informações racionais, não emocional. Porque no fim das contas, o que está em jogo não é apenas política. É a vida cotidiana de milhões de pessoas inocentes que apenas terem seus direitos garantidos, o que não ocorre mais na Argentina, e viver dignamente.


Tenho dito, senhoras e senhores!


quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

A LÍNGUA PORTUGUESA: ENTRE A HISTÓRIA, O PODER E A POESIA Professor Gleidistone Antunes

 


A LÍNGUA PORTUGUESA: ENTRE A HISTÓRIA, 

O PODER E A POESIA

Professor Gleidistone Antunes


O português não é uma pedra antiga cravada no tempo. É rio. Corre entre séculos, atravessa corpos, aprende novos nomes para aquilo que antes não sabia nomear. Carrega na corrente as vozes de quem chegou, de quem foi silenciado, de quem insiste em permanecer. Uma língua vive porque respira na boca do povo e porque se move com o mundo.

Houve um tempo em que esse idioma chegou como maré imposta, cobrindo terras, calando cantos originários, desfazendo sons que pertenciam à floresta e ao vento. Muitas palavras ficaram soterradas, muitas gramáticas nasceram sem registro. Ainda assim, sob a superfície do português que se ensinou como oficial, persistem ecos indígenas, africanos, mestiços, sobrevivendo na música, na fé, na oralidade que se recusa a desaparecer.

Nenhuma língua viva aceita ser museu. As palavras envelhecem quando se recusam a escutar. O português permanece jovem porque muda. Porque se dobra às urgências de quem fala, porque se abre às identidades que se revelam. É no encontro entre a norma e a vida que o idioma se reinventa, não como ruptura, mas como continuidade em movimento.

Hoje, novas formas de nomear surgem como quem acende luz em territórios antes invisíveis. Há pessoas que não cabem no binário antigo das palavras e buscam abrigo na linguagem. Procuram pronomes que não as aprisionem, flexões que não as excluam, vocábulos que reconheçam sua existência inteira. Não pedem permissão ao tempo, apenas caminham com ele.

Alguns temem que a língua se perca. Esquecem que perder seria deixar de escutar. O português não se desfaz quando acolhe, ele se expande. Cada inovação é uma respiração a mais, cada adaptação é um gesto de sobrevivência. Uma língua que não muda se fossiliza. Uma língua que se permite sentir continua pulsando.

Assim, o português contemporâneo segue como corpo vivo, tecido de história e de futuro. Em suas sílabas cabem memórias e possibilidades. Em suas transformações, a certeza de que falar é existir e de que existir exige, sempre, novas palavras.

Portanto, língua não é apenas um instrumento de comunicação; é também território simbólico, campo de disputas ideológicas e espaço de construção da identidade. Ao analisarmos criticamente a Língua Portuguesa sob as perspectivas da linguística, da história, da filosofia e da literatura, percebemos que ela se constitui como organismo vivo, em permanente transformação, atravessado por tensões sociais, políticas e estéticas.


A LÍNGUA COMO PROCESSO HISTÓRICO


A história do português remonta ao latim vulgar trazido pelos romanos à Península Ibérica, que, ao longo dos séculos, sofreu influências germânicas, árabes e, posteriormente, das línguas indígenas e africanas no contexto colonial. Como afirma Evanildo Bechara: “A língua é um patrimônio histórico-cultural que se constrói no uso e na tradição.

Esse patrimônio, entretanto, nunca foi homogêneo. No Brasil, o português se formou no contato com o tupi, o iorubá, o quimbundo e tantas outras matrizes linguísticas. A língua que falamos é resultado de encontros e conflitos, de colonização e resistência.

O linguista Marcos Bagno enfatiza: “Não existe erro em língua, existe inadequação a determinada situação de uso.

Essa afirmação desloca a discussão do campo moral para o campo sociolinguístico, denunciando o preconceito linguístico como forma de exclusão social.


LINGUAGEM E PODER


Sob uma perspectiva filosófica, a língua é também instrumento de poder. Como nos ensinou Michel Foucault, “o discurso não é simplesmente aquilo que traduz as lutas ou os sistemas de dominação, mas aquilo por que, e pelo que, se luta”. A norma padrão, frequentemente apresentada como única forma legítima da língua, torna-se mecanismo de controle simbólico.

No Brasil, o ensino tradicional da gramática normativa muitas vezes ignorou a pluralidade linguística do país. A imposição de um modelo idealizado reforçou desigualdades históricas. Nesse sentido, a linguística moderna propõe uma visão descritiva, não prescritiva, reconhecendo a legitimidade das variedades populares.


A LÍNGUA COMO CRIAÇÃO LITERÁRIA


Se na história a língua é conquista e conflito, na literatura ela é reinvenção. Fernando Pessoa escreveu: “Minha pátria é a língua portuguesa.”

Essa célebre declaração sintetiza a dimensão existencial do idioma. A língua ultrapassa fronteiras geográficas e torna-se espaço de pertencimento simbólico.

Já Carlos Drummond de Andrade, em tom reflexivo, afirmou: “Lutar com palavras é a luta mais vã.”

Aqui, a língua aparece como matéria resistente, que exige do poeta esforço e lapidação. A literatura revela o potencial criativo do idioma, sua capacidade de recriar o mundo.

Guimaraes Rosa levou essa reinvenção ao extremo, expandindo o léxico e explorando as possibilidades sonoras e semânticas do português. Sua obra demonstra que a língua não é estática, mas campo de experimentação.


FILOSOFIA DA LINGUAGEM: ENTRE O SER E O DIZER


Do ponto de vista filosófico, a linguagem constitui o próprio pensamento. Não pensamos fora das palavras. A tradição filosófica moderna aponta que os limites da linguagem são também os limites da compreensão do mundo.

No contexto lusófono, a reflexão sobre o idioma sempre esteve associada à identidade cultural. A língua portuguesa conecta continentes — Europa, América, África e Ásia — mas carrega as marcas de processos coloniais que precisam ser criticamente revisitados.


CONSIDERAÇÕES FINAIS


A análise crítica da Língua Portuguesa revela que ela é, simultaneamente, herança histórica, instrumento de poder, expressão estética e fundamento do pensamento. Não se trata apenas de preservar normas, mas de compreender processos. Não se trata apenas de ensinar regras, mas de formar consciência linguística.

A língua é viva porque é humana. E, sendo humana, é plural, contraditória e criativa. Defendê-la não significa congelá-la, mas permitir que continue sendo espaço de diálogo, diversidade e poesia.


REFERÊNCIAS


ANDRADE, Carlos Drummond de. A rosa do povo.

BAGNO, Marcos. Preconceito linguístico: o que é, como se faz.

BECHARA, Evanildo. Moderna Gramática Portuguesa.

FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso.

PESSOA, Fernando. Livro do Desassossego.

ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas.