Consciência Ética em Tempos de Degradação Política: o Brasil entre o Poder e a Ruína
*Professor Gleidistone Antunes
O Dia Nacional da Ética é celebrado no Brasil, hoje - 2 de maio, instituído para promover a reflexão sobre conduta íntegra, honesta e responsável nas relações pessoais, profissionais e na administração pública. A data incentiva o combate à corrupção, a transparência e a construção de uma sociedade mais justa e respeitosa.
Celebrar o Dia Nacional da Ética, em 2 de maio, no Brasil contemporâneo, impõe menos um gesto comemorativo do que um exercício rigoroso de autocrítica. A ética, enquanto reflexão filosófica sobre o agir humano, não se limita a códigos formais ou discursos protocolários; ela se enraíza na consciência, isto é, na capacidade de discernir entre o justo e o injusto em situações concretas. No entanto, o que se observa no cenário nacional é um progressivo esvaziamento dessa consciência ética, substituída por uma racionalidade instrumental que reduz o bem comum a moeda de troca. A política, que deveria ser o espaço privilegiado da realização da justiça, converte-se, assim, em arena de interesses privados, onde a aparência de legalidade frequentemente encobre práticas moralmente degradantes.
No interior do Congresso Nacional, essa crise se manifesta de modo particularmente agudo. As articulações políticas, muitas vezes marcadas por negociações opacas, fisiologismo e clientelismo, revelam uma lógica de poder que se afasta da responsabilidade pública. O mandato, que deveria expressar a vontade popular, torna-se instrumento de barganha, submetido a alianças circunstanciais que priorizam a manutenção de privilégios e a autopreservação de grupos políticos. Tal dinâmica não apenas corrói a confiança nas instituições democráticas, mas também banaliza a transgressão ética, naturalizando comportamentos que, em outros contextos, seriam amplamente condenados. A ética, nesse ambiente, deixa de ser princípio orientador e passa a ser mero ornamento retórico.
As consequências dessa ruína moral e política recaem, de forma direta e cruel, sobre o povo brasileiro. A precarização dos serviços públicos, o aprofundamento das desigualdades sociais e a sensação generalizada de injustiça são sintomas de um sistema que perdeu seu horizonte ético.
Quando decisões fundamentais são tomadas com base em interesses escusos, o resultado é a perpetuação de um ciclo de exclusão e desamparo. Recuperar a consciência ética, portanto, não é apenas uma exigência filosófica, mas uma urgência histórica: trata-se de reconstituir o vínculo entre política e responsabilidade, resgatando a ideia de que governar é, antes de tudo, um compromisso com a dignidade humana e com a construção de uma sociedade mais justa e, portanto igualitária.
*Professor Gleidistone Antunes é blogueiro, poeta e leciona Teoria da Literatura na Faculdade de Formação de Professores da Mata Sul/PE.
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