Por Gleidistone Antunes
Há quem acredite que Deus escolheu uma única raça, uma única nação ou um único povo para ocupar um lugar privilegiado na história. Essa ideia, quando transformada em ideologia, deixa de ser uma convicção religiosa e passa a justificar a exclusão, a discriminação e a violência contra todos aqueles considerados "diferentes".
O ódio já não desfila apenas sob mantos brancos e capuzes. Hoje, muitas vezes, veste terno e gravata, ocupa púlpitos, plataformas digitais e espaços de poder. Apropria-se da linguagem da fé, do patriotismo e da moralidade para dividir pessoas, comunidades, religiões e até famílias.
Ao longo da história, líderes políticos e religiosos utilizaram o nome de Deus para legitimar perseguições, condenações e guerras. Em vez de anunciar a esperança, transformaram a religião em instrumento de medo; em vez de promover a fraternidade, difundiram a cultura do inimigo.
A lógica da exclusão permanece viva. Ela não se manifesta apenas no racismo, mas também na intolerância religiosa, na xenofobia, na misoginia, na homofobia e em toda forma de preconceito que transforma seres humanos em adversários a serem combatidos. Quando interesses políticos, econômicos e religiosos se unem para manipular a fé e alimentar projetos de poder, o resultado é a corrosão da democracia, da justiça social e da própria espiritualidade e isso tem nome: Neonazifacismossionista-religioso.
A história da Ku Klux Klan é um dos exemplos mais sombrios dessa perversão. Reorganizada em 1915 por William Joseph Simmons, a organização apropriou-se de símbolos e discursos cristãos para justificar práticas de terror contra negros, imigrantes, judeus, católicos e outros grupos considerados “indesejáveis”. A Bíblia foi manipulada para legitimar crimes que negavam frontalmente os ensinamentos centrais do Evangelho.
A adesão à Klan exigia, entre outros critérios, ser branco, protestante e defensor da supremacia branca. Em poucos anos, a organização alcançou milhões de membros, contando, em diversas regiões dos Estados Unidos, com apoio ou tolerância de segmentos religiosos que confundiam nacionalismo, identidade religiosa e superioridade racial.
Essa história ensina uma verdade inquietante: a violência raramente se apresenta dizendo seu verdadeiro nome. Ela costuma vestir a roupa da moral, da tradição, da ordem ou até da religião. Sempre que Deus é transformado em propriedade exclusiva de um grupo, a fé deixa de ser caminho de libertação para tornar-se instrumento de dominação.
Infelizmente, ainda hoje é possível encontrar discursos que, em nome de Deus, estimulam a intolerância, desumanizam minorias, relativizam a dignidade da mulher, alimentam preconceitos, demonizam adversários políticos e tratam diferenças culturais, religiosas ou sociais como ameaças a serem eliminadas. O problema não está na fé, mas na instrumentalização da fé para servir a projetos de poder.
O Cristo dos Evangelhos jamais ensinou a odiar. Ao contrário, proclamou: "Amarás o teu próximo como a ti mesmo." Sua mensagem rompeu barreiras étnicas, religiosas e sociais, acolhendo aqueles que eram rejeitados por seu tempo.
Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja quem usa o nome de Deus, mas para quê o utiliza. Uma fé que produz ódio, medo e exclusão precisa ser confrontada pela própria mensagem que afirma defender.
O capuz da Ku Klux Klan pode ter caído, mas toda vez que a religião é usada para justificar a superioridade de uns sobre outros, para alimentar preconceitos ou para transformar o diferente em inimigo, o seu espírito encontra novas formas de sobreviver.
Cabe a cada um de nós permanecer vigilante. A história demonstra que os maiores retrocessos da humanidade começam quando deixamos de questionar discursos travestidos de fé, patriotismo ou moralidade. Que tenhamos coragem de discernir entre a religião que liberta e a religião que escraviza, entre a política que promove a dignidade humana e aquela que transforma o ódio em projeto de poder. Afinal, onde o amor deixa de ser o centro, Deus já não ocupa o mesmo lugar que os homens afirmam lhe dar.
Tenho dito senhoras e senhores
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