quinta-feira, 22 de outubro de 2026

UM POMBO NO TABULEIRO DO PSEUDO DEBATE Professor Gleidistone Antunes

 



UM POMBO NO TABULEIRO 

DO PSEUDO DEBATE

Professor Gleidistone Antunes  



 Há espetáculos que custam caro à inteligência, embora sejam transmitidos gratuitamente pela televisão. O debate entre Lula e Flávio Bolsonaro oferece uma imagem sugestiva dos descaminhos da política: a de um pombo que invade um tabuleiro de xadrez, derruba as peças, suja a partida e sai de peito estufado, convencido de que derrotou o adversário. Onde deveriam prevalecer argumentos e propostas, instala-se o tumulto; onde se esperava inteligência, celebra-se a desordem.

A metáfora serve para refletir sobre a postura de Flávio Bolsonaro quando a provocação ameaça ocupar o lugar dos argumentos. Criticar Lula é legítimo, cobrar explicações é necessário e confrontar projetos é indispensável. Entretanto, existe uma distância considerável entre firmeza e insolência, entre ironia e grosseria, entre coragem política e a disposição de constranger o interlocutor. A falta de compostura não é personalidade, a arrogância não é coragem e a humilhação não constitui prova de superioridade intelectual.

O desrespeito, naquela noite, não atingiu apenas o adversário político, mas também os telespectadores, os jornalistas, os mediadores e os profissionais da Bandeirantes que tornaram possível o encontro. O debate público não é propriedade particular de candidatos, tampouco o microfone deve servir à satisfação de vaidades pessoais. Quando a provocação gratuita substitui o esclarecimento, a democracia se apequena. Respeitar quem pensa diferente não significa concordar com suas ideias, mas reconhecer sua dignidade e compreender que a divergência exige maturidade.

O pombo, naturalmente, não se preocupa com essas sutilezas: basta-lhe acreditar que venceu, mesmo que as peças estejam caídas e a partida tenha sido destruída. Depois, surgem as torcidas, os recortes e os troféus imaginários distribuídos nas redes sociais. Entretanto, permanece a pergunta: quantas propostas foram examinadas, quantas dúvidas foram esclarecidas e quanto o eleitor aprendeu sobre os projetos em disputa? Quando sobram provocações e faltam respostas, a derrota pode ser coletiva, ainda que um dos participantes abandone o estúdio convencido de sua glória.

O Brasil não precisa de campeões de tumulto, mas de representantes capazes de argumentar, responder a perguntas difíceis e respeitar os limites da convivência democrática. Flávio Bolsonaro pode reivindicar a vitória que desejar; o julgamento, porém, pertence aos cidadãos. Afinal, no xadrez da democracia, não vence quem derruba as peças, suja o tabuleiro e sai de peito estufado. Vence quem sabe jogar sem destruir o espaço em que todos precisam continuar jogando. Diante do tabuleiro em ruínas, a fanfarra do pombo não passa do ruído de quem confundiu desordem com inteligência e arrogância com vitória.


Palmares, 19 de outubro de 2026.