CRÔNICA SOBRE O FUJÃO
DE ALMA VAZIA
Professor Gleidistone Antunes
Pois é, caro leitor, a notícia caiu como um piano desafinado no telhado da pátria: Flávio Bolsonaro, o homem que se vendia como a própria encarnação da honestidade, tratou de arrumar as malas e sumir. Dizem as más-línguas — e as boas também — que ele cruzou a fronteira pela Argentina, na calada da madrugada, rumo aos Estados Unidos. O sujeito que posava de paladino da moral e dos bons costumes, na hora do aperto, trocou o púlpito pelo portão de embarque. A ironia é tão grande que chega a doer nos dentes: o mesmo homem que bradava contra a impunidade e a corrupção agora é um fujão de primeira linha, um campeão olímpico da esquiva, com direito a passaporte cancelado e tudo. Enquanto isso, a nação assiste, boquiaberta, a esse espetáculo de covardia em que o “mito” se revela um simples mortal apressado.
Mas não se engane, leitor: por trás dessa fuga cinematográfica há um enredo bem menos glamouroso. O nosso ilustre fugitivo não é nenhum novato no crime; ele está sendo investigado por formação de quadrilha e lavagem de dinheiro, com direito a um histórico de rachadinhas e negociações suspeitas que fariam corar qualquer novela mexicana. A Polícia Federal anda de olho nele por conta de um esquema que envolve desde o financiamento de um filme biográfico do pai até movimentações milionárias em contas fantasma. É o típico caso do “faça o que eu digo, não faça o que eu faço”: enquanto discursava sobre família e tradição, o rapaz cuidava de abastecer os cofres pessoais com dinheiro que, pasme, não cheirava nem um pouco a rosas. A quadrilha, ao que parece, não era só uma metáfora de campanha.
E o que dizer da campanha presidencial, meu Deus? Flávio Bolsonaro, o candidato que jurou de pés juntos que lutaria pelos pobres, pelos negros e pelos evangélicos de direita, agora os deixou chupando o dedo na porta do aeroporto. Ele, que recebeu os votos dos que acreditavam piamente em sua palavra, tratou de renegá-los sem a menor cerimônia, como quem descarta um guardanapo usado. A metáfora é cirúrgica: o político que prometia ser o escudo dos oprimidos revelou-se um paraquedas de luxo, que só pensa em salvar a própria pele. Os púlpitos que o aplaudiam de pé agora ecoam um silêncio ensurdecedor, e os fiéis que depositavam nele suas esperanças veem seu ídolo de barro se desmanchar em pleno voo para Miami. Traição é pouco: é uma aula magna de ingratidão.
A covardia, aliás, é o tempero dessa fuga mal-ajambrada. O sujeito não teve nem a decência de entregar os passaportes, como havia prometido em rede nacional, e ainda teve a cara de pau de dizer que “nunca pensou em sair do país”. Mentira deslavada, dessas que fazem o Pinóquio corar de vergonha. Enquanto isso, os deputados pedem a cassação do mandato e a suspensão do salário, mas ele, lá nos States, deve estar rindo à toa, com o dinheiro do contribuinte a lhe custear o exílio dourado. A pátria, essa ingrata, ficou para trás, assim como os votos, os discursos e a falsa moral. O que restou foi um rastro de fumaça de jatinho e um país inteiro se perguntando como alguém consegue ser tão descaradamente traidor.
No fim das contas, a crônica que se desenha é a mais pura tragicomédia: o “homem de família” que abandonou a família inteira no Brasil, o “cristão fervoroso” que trocou os templos pelos corredores do aeroporto, o “patriota” que deu no pé assim que a coisa apertou. Flávio Bolsonaro não fugiu apenas do país; ele fugiu do próprio discurso, da própria imagem, da própria alma. E nós, pobres expectadores, ficamos aqui, com a ironia amarga na boca, a assistir ao desfile de um fujão que nunca pensou no Brasil, mas apenas em si mesmo. Que venha o próximo capítulo, porque este, definitivamente, já começou mal.
Palmares, 17 de outubro de 2027
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